quarta-feira, 18 de abril de 2012

A amante do lobo, inspira artigos - Parte I

Dialogando com Simone de Beauvoir
Zilá Bernd*

    A amante do lobo  é o romance de estreia de Ana PaulaFohrmann, nascida no Rio de Janeiro em 1971. A autora é advogada com parte de sua formação em Direito realizada em Heidelberg, onde concluiu seu doutoramento e, no final de 2009, seu pós-doutorado.

    Por que ler o livro desta jovem escritora estreante? Por muitos motivos: o estilo cativa o leitor e o tema é realmente provocante, atraindo a atenção do público leitor feminino, mas também masculino, já que o romance busca responder a seguinte questão: Por que mulheres independentes e contemporâneas se tornam presas fáceis de homens envolventes e dominadores, renunciando a sua independência?

    Uma excelente chave de leitura é colocada em epígrafe: ao citar um trecho de uma obra  menos conhecida de Simone de Beauvoir –  La femme rompue  [Mulher desiludida, na tradução para o português, de 1968], o leitor percebe que se trata de um diálogo intertextual que a autora irá travar com a grande musa do feminismo avant la lettre, Simone de Beauvoir. Um diálogo retomado com um intervalo de quarenta anos, mas ainda assim atual e sobretudo necessário. 

      Quando S. de Beauvoir publica os três contos reunidos sob o título de  Une femme rompue, ela já havia escrito sua obra de maior impacto O segundo sexo, há cerca de 20 anos, em 1949. Considerado a bíblia do futuro movimento feminista que vai se encenar a partir dos anos 1960, em várias partes do mundo, o livro lança de fato as bases para o movimento de emancipação das mulheres. Em 1968, o trabalho realizado pela filósofa, escritora e agitadora cultural, que foi S. de Beauvoir, no sentido  da libertação da mulher do jugo patriarcal, alicerçou-se em elementos muito objetivos sem os quais essa emancipação não aconteceria: acesso ao estudo, realização profissional, insersão no mercado de trabalho e a consequente  independência financeira e, sobretudo, a consciência de si e a plena afirmação de sua identidade e dos rumos de seu destino, em consonância com os princípios do existencialismo. Relegada à condição de subalternidade e de secundaridade em relação ao sexo masculino (soi disant primeiro sexo), a mulher tinha poucas condições de sobrevivência fora da casa do pai ou do marido. « É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta ». Essa é uma das muitas sentenças famosas da eterna companheira de Jean-Paul Sartre que, por seu trabalho ético e frenético ao mesmo tempo, a chamava de Castor, animal conhecido por sua tenacidade.

    O título da tradução em língua portuguesa -  Mulher desiludida (1) -  não tem a mesma força do original, cujo sentido se aproxima de aniquilada, dilacerada, destruída. Nessa novela, uma mulher vive em perfeita harmonia com seu marido, estruturando toda a sua vida em torno dele, das  filhas e dos cuidados com a casa. Na faixa dos 45 anos, as filhas se tornam independentes e saem de casa; é nesse momento que ela percebe que « há uma mulher na vida do marido ». Tenta conviver na base do triângulo amoroso – uma das bases contratuais de vida de Sartre e Simone – mas a tentativa fracassa. Vendo-se sozinha, entra em profunda depressão. Amigos aconselham-na a começar a trabalhar, mas já é tarde para iniciar uma carreira sem nenhum preparo. O que a ampara, de certa forma, é o exercício da escrita já que o leitor conhece a trama da novela através de um diário mantido pela « mulher desiludida ». Em mais de um dos seus múltiplos livros, S. de Beauvoir insiste nos extraordinários poderes da escrita para uma mulher conhecer melhor a si mesma, rever os erros e acertos que cometeu e, assim, reconstruir uma identidade desfeita. Apesar desse esforço, a personagem não consegue superar a crise, não atinge os ideais preconizados nos ensaios filosóficos de Simone e na sua obra ficcional que inauguram o movimento feminista, mergulhando em uma depressão profunda da qual o leitor não chega a vislumbrar as reais  possibilidades da narradora de encontrar o itinerário de sua emancipação. A novela termina com as seguintes palavras da protagonista-narradora : « Tenho medo » (p.163). 

    Em  A amante do lobo, Ana Paula Fohrmann inicia um diálogo intertextual explícito com a autora de O segundo sexo, criando uma personagem que narra em um diário sua vida amorosa com um homem casado, aceitando abrir mão de sua independência e de sua identidade própria para viver uma relação a três que projeta um cone de sombra sobre sua existência. Vive ao sabor das oportunidades que o amante engendra para encontrá-la  e essas datas são sempre as que melhor convêm a ele e não a ela. A personagem é uma jovem professora de literatura de uma universidade francesa.  Percebem-se, várias semelhanças com a narrativa de S. de Beauvoir : um caso de infidelidade conjugal, a tentativa do homem de querer manter as  duas mulheres (a esposa e a « outra »), além da narrativa fragmentada em forma de diário íntimo, gênero conhecido como « a escritura do eu », ou seja, a que permite a emergência da subjetividade. O interessante, porém, são as diferenças : enquanto a autora francesa dá voz à esposa traída, que faz de seu diário um exercício de martirologia e não consegue fazer o luto da relação perdida, a autora brasileira dá voz à amante que, sendo uma mulher de vida intelectual ativa, logra reverter a situação e realizar plenamente o trabalho de luto da relação que ela tomará a iniciativa de romper. 

    É como se Ana Paula Fohrmann rendesse tributo às teses de Simone segundo as quais só uma mulher financeiramente independente e de vida intelectual ativa teria condições de construir sua emancipação e fundar sua existência autonomamente. A personagem assume sua liberdade através de um movimento construtivo, pois, segundo S. de Beauvoir, não existimos sem fazer. A protagonista de a  Mulher desiludida, vivendo nos anos 1960, deixa-se « romper/aniquilar » pela desilusão. A personagem da autora brasileira que aceitara, durante longo tempo, ser « a amante do lobo », colocando-se como « presa fácil », aceitando a relação amorosa como um « vício » e uma « dependência », acaba por reconquistar sua liberdade  (palavra-chave na obra da filósofa francesa), recusando a opressão exercida sobre ela. Vence definitivamente o lobo (o amante, isto é, o lobo, não tem nome na novela), símbolo por excelência da devoração e da selvageria, sendo, em muitas mitologias, a forma que assumem os feiticeiros, atingindo-o com o golpe fatal de uma revelação libertadora: «Eu amo um outro homem» (Fohrmann, p. 88).      

    Há que assinalar, contudo, que no verdadeiro exercício de braconagem intelectual praticado por Ana Paula Fohrmann em relação à obra de Beauvoir,  as teses filosóficas da autora francesa são, ao menos em parte, referendadas, como tentamos mostrar. Contudo, a proposta existencial do casal Sartre/Simone de estruturar suas vidas amorosas em torno de um trio e não de um casal, são contestadas e revertidas, tendo a protagonista encontrado a harmonia em um novo relacionamento monogâmico. Um trio, na ótica de Simone,  compreendia de um lado um “amor necessário”, com Sartre; e, de outro, o que ambos chamavam de “amores contingentes”, incluindo outros parceiros masculinos e femininos.      
                                                                                                                                                                                 
    A autora realiza, assim, um bem sucedido exercício de braconagem, conceito  desenvolvido por Michel de Certeau (A invenção do cotidiano. Artes de fazer, 1994) e por Simon Harel (Braconagem: um novo modo de apropriação do lugar?, revista Interfaces/Brasil-Canadá, 2005) que, recorrendo à metáfora do caçador furtivo (braconneur), que invade terrenos alheios para exercer sua atividade, concebem positivamente este ato como um salutar exercício de transferências culturais. Temos, desse modo, nesse pequeno livro de apenas 94 páginas, uma retomada de um debate apaixonante sobre a condição feminina que, iniciado em 1947 por Simone de Beauvoir não cessa de ser continuamente renovado.

     Retomada interessante desse diálogo intertextual ou dessa prática da braconagem, foi feita por volta dos anos 1980, no Brasil,  pela jornalista e escritora Carmem da Silva que, para além das crônicas « sobre a arte de ser mulher » publicadas na revista Cláudia, assinou dois romances provocativamente intitulados: Histórias híbridas de uma senhora de respeito, em clara alusão ao romance de 1956 de Simone de Beauvoir, Mémoires d´une jeune fille rangée, e Sangue sem dono,  aproximando-se de outra obra de Beauvoir,  Le sang des autres, de 1945.

     Esperando que outros temas da fecunda obra de Simone de Beauvoir, como a questão da maternidade, posta em xeque pela autora, e contestada pelo movimento feminista atual, possam ser ficcionalizadas pela pena delicada de Ana PaulaFohrmann, com a mesma perícia e maestria com que compôs esse livro de estreia : A amante do lobo. 

1- Tradução de Helena Silveira, editora DIFEL, 1968.  4

*Doutora em Letras pela USP, professora e orientadora do PPG/letras da UFRGS e do
Mestrado em Memória Social e Bens Culturais do Unilasalle. Pesquisadora do CNPq.   

Livro publicado pela Libretos:

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